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quarta-feira, janeiro 04, 2012

Entardecer na Praia

Memórias…

Claro que me lembro daquele dia na praia. Ainda não consegui apagar o calor do sol no meu corpo, o toque da areia nas minhas costas, a tua pele na minha, o sabor a sal… O teu desassossego pelas pessoas que passavam e eu indolente nos teus braços. Se fechar os olhos sinto os meus dedos a correr as tuas costas, as tuas mãos a deslizar nas minhas pernas, o meu ventre roçando-te e os teus lábios a tocar os meus. Oiço as ondas a rebentar na areia, cheiro a mar à nossa volta e provo-te num entardecer quente de outono.

…de outra pessoa.

terça-feira, dezembro 06, 2011

Cartas para anónimos imerecidos

Tenho saudades do verão e da praia…mas o tempo passa, as estações mudam e a vida continua. Tal como o verão, partiste sem dizer nada e desapareceste. As saudades ficaram para quem as sentiu no amargo sabor da ausência mas vão-se diluindo com a chegada do inverno. O verão foi quente e preenchido mas fugaz e esquivo, sem vontade de ficar para me aquecer no frio, sem uma palavra para dizer adeus nem um carinho para relembrar. Não ficou saudoso porque a tristeza que deixou para trás não foi merecida.

A felicidade não é um destino, é um caminho. E sabe sempre melhor acompanhada.

quinta-feira, outubro 27, 2011

andanças...


Tenho o coração cansado destas andanças, de se dar sem receber, de gostar sem haver querer. Tenho a alma descrente e o corpo ardente da chama por consumir. Tenho os pés doridos da caminhada por um trilho percorrido de volta, por quem achou que havia destino. Tenho os olhos tristes e o sorriso escondido, os braços em baixo e o passo lento.
Mas a cabeça erguida e a olhar para a frente, porque só vejo esse caminho.

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Página de um diário

São 11h da noite quando chego a casa. Deixei a luz da sala acesa, como habitualmente faço quando sei que vou chegar de noite. Porque está escuro. E vazio. Dá uma ilusão de conforto.

Um temporal desaba quando estaciono e, apesar da espera no carro, desisto que a chuva amaine e enfrento uma molha-relâmpago para entrar em casa. A chave dá luta e a porta ainda mais, ou não estivesse a chover copiosamente e eu debaixo da chuva! Entro em casa encharcada e tiritante de frio, contente por ter deixado o aquecedor ligado e a rir. Não tenho ninguém que ria comigo. A chuva fria sabe bem. Mas ninguém a saboreia comigo. Encolho os ombros e começo a despir a roupa molhada enquanto a penduro nas cadeiras perto do aquecedor. Visto o “pijama”, calço as pantufas velhas e vou à cozinha procurar comida que conforte o estômago. “Queres uma torradinha?” penso. “Sim amor!” era a resposta. Sorrio novamente. Nada diz “amo-te” tão bem como uma torrada! Dizia… Decido-me pelos cereais. Volto para a sala e sento-me no tapete fofo de lã a comer. Uma qualquer série passa no canal 2, mas serve para fazer barulho. Porque está silencioso. E vazio. Dá uma ilusão de conforto.

A chuva lá fora continua a cair com força, o vento ruge violentamente, acompanhado pelo mar. Vou para o quarto, abro os lençóis vazios e entro na cama. Fria. Volto a sair, pego no saco de água quente e vou à cozinha aquecer água. Quando volto à cama, o calor da água quente ilude-me os pés gélidos. O mar lá fora embala-me. Sorrio mais uma vez. Porque está solitário. E vazio. Dá uma ilusão de conforto.

terça-feira, julho 20, 2010

Ensaios teóricos de alguém

…e se o mundo estivesse para acabar?

Despir-me-ia de responsabilidades alheias, curar-me-ia de infelicidades e procurar-te-ia num beijo salgado entre ondas serenas de um mar solitário.

Quebrava as amarras, soltava a minha existência e libertava-me num grito viajante em busca do que não existe.

Levava-me para longe, esquecia-me de tudo e, com a ingenuidade de uma criança, aprendia tudo de novo.

Apenas para me relembrar num regresso.

domingo, fevereiro 08, 2009

Porque não há duas sem três!

Ou não fosse este o ditado popular mais recorrente de que tenho memória. Parece que tudo o que se repete por uma segunda vez, tem a terceira dose. Com direito a “jingle” radiofónico logo pela manhã, este adágio que se me colou na pele deixou-me com sabor a pouco.

Pouco foi aquilo a que me propus, pouco era o que queria dar, pouco ia receber. Encolhendo os ombros, aceitei a terceira volta como quem aceita uma tempestade de inverno: impotente, mas destemida. Quis-me tapar em cobertores grossos, atravessar a tormenta protegida numa armadura, vivê-la sem lhe tocar.
Mas a intempérie começou suave, e deixei-a chuviscar-me na pele. Pingos frescos, miúdos, uma carícia amena a avisar que vinha de passagem, com pés de lã para nem marcar o chão. Quase sem dar por isso abri a porta e saí para a rua, convencida de que a protecção não era precisa e que tempestade nem havia. A chuva molhava quente, e convidava a vir à rua desfrutar a brisa inconsequente. Sentia a água no corpo a envolver-me e brincava nas poças de água a chapinhar. A acreditar que a minha tempestade era um aguaceiro de verão, curto e divertido mas passageiro, fui-me deixando ficar. Andava distraída à cata dos pingos que se cruzavam com os raios de sol e ficava a olhar o arco-íris. Sempre certa que o meu pé-d’água iria findar, usei o suor do corpo para lhe igualar a água chovida e chuviscar com ele. Quase como se quisesse deixar as minhas pingas no seu quintal. Iria chover para outras paragens, mas levaria consigo alguma água minha. E na última gota que deixou chover para mim, não lhe disse adeus.

sábado, janeiro 24, 2009

Porque os rinocerontes também choram

Guardar uma porta é trabalho difícil. Não difícil de árduo, ou trabalhoso, ou até complicado; difícil de tédio. Eles entram, eles saem, eles passam… mas não ficam. Uma porta é local de passagem. Não há permanência, e a única estabilidade é a da porta, que está ali para ser guardada.

Mas então…porquê guardar a porta? Se quem entra também sai, se não existe nenhum tesouro por detrás, se não há segredo lá dentro? À primeira vista, para os habituais, a porta permite passar para um pequeno espaço já familiar. Para os desconhecidos, uma penumbra acolhedora.

Mas quem guarda a porta não deixa passar todos. “Podes argumentar o que quiseres, que tenho a sensibilidade de um rinoceronte!” Um rinoceronte friorento, gozão, que cuida do seu pomar. “Nevar? Querem-me queimar as laranjas!”. Lá dentro, para ele, algo tem de ser protegido. Um eixo. Vários pontos unidos por um intuito comum, rodeados por uma pequena plateia cuidadosamente escolhida. Clandestino mas pouco secreto, este eixo alimenta um veneno muito pouco mortal, que nutre as almas que o partilham. Mais que uma porta, guarda uma segunda família.

P.S.: foi um bocado em cima do joelho, mas fiz a minha parte do acordo!