quarta-feira, dezembro 29, 2010

Página de um diário

São 11h da noite quando chego a casa. Deixei a luz da sala acesa, como habitualmente faço quando sei que vou chegar de noite. Porque está escuro. E vazio. Dá uma ilusão de conforto.

Um temporal desaba quando estaciono e, apesar da espera no carro, desisto que a chuva amaine e enfrento uma molha-relâmpago para entrar em casa. A chave dá luta e a porta ainda mais, ou não estivesse a chover copiosamente e eu debaixo da chuva! Entro em casa encharcada e tiritante de frio, contente por ter deixado o aquecedor ligado e a rir. Não tenho ninguém que ria comigo. A chuva fria sabe bem. Mas ninguém a saboreia comigo. Encolho os ombros e começo a despir a roupa molhada enquanto a penduro nas cadeiras perto do aquecedor. Visto o “pijama”, calço as pantufas velhas e vou à cozinha procurar comida que conforte o estômago. “Queres uma torradinha?” penso. “Sim amor!” era a resposta. Sorrio novamente. Nada diz “amo-te” tão bem como uma torrada! Dizia… Decido-me pelos cereais. Volto para a sala e sento-me no tapete fofo de lã a comer. Uma qualquer série passa no canal 2, mas serve para fazer barulho. Porque está silencioso. E vazio. Dá uma ilusão de conforto.

A chuva lá fora continua a cair com força, o vento ruge violentamente, acompanhado pelo mar. Vou para o quarto, abro os lençóis vazios e entro na cama. Fria. Volto a sair, pego no saco de água quente e vou à cozinha aquecer água. Quando volto à cama, o calor da água quente ilude-me os pés gélidos. O mar lá fora embala-me. Sorrio mais uma vez. Porque está solitário. E vazio. Dá uma ilusão de conforto.

4 comentários:

Rafeiro Perfumado disse...

Que texto tão bonito, jove. Só discordo de uma coisa, nada dizer melhor "amo-te" do que uma torrada. Uma vez recebi uma declaração de um scone que me ia levando ao céu.

Beijoca!

Vani disse...

LINDO!!!!!!!!!!!!!!!!! o teu dedo do pé está muito inspirado!! :)

Anónimo disse...

Por vezes, caem-nos mal as torradas que, com o tempo, descobrimos estar a comer com as pessoas erradas - e já vamos tarde, com dor de barriga! Mas é então que nos chega a saber bem melhor a recordação das torradas já comidas e do amo-te que as acompanhava... porque era tão grande o amor que de alguma forma e por alguma razão sairia. Mas disto nem toda a gente sabe.

"Gts...meu amor!" e não estás sozinha... tens cá eu.

Blog d@ni-ecos do meu eu disse...

Parabéns,sempre passo por aqui.
Textos sempre lindos!
Uma Feliz Páscoa a todos.
Bjs!Dani.